terça-feira, 1 de maio de 2018

A minissérie de Wolverine: a reinvenção de um personagem, de um leitor, de um ser humano



Em 1982, Wolverine ganhou sua primeira história solo, mediante a sua grande popularidade entre os fãs da equipe mutante X-Men. Seria uma minissérie, em quatro edições, roteirizada pelo mesmo roteirista do principal título mutante, Chris Claremont, e com arte e também participação nos roteiros de Frank Miller, até então em ascensão na indústria, onde futuramente, se tornaria um de seus maiores ícones.
Em 2003, o filme X-Men 2 seria lançado no mês de maio. Este filme mudaria minha vida para sempre. Tendo visto o primeiro filme dos X-Men apenas dias antes de ver o segundo, numa exibição em um canal de TV aberta, o acaso acabou me presenteando com a ida ao cinema, simplesmente por não ter ido até lá no horário do filme que minha mãe queria de fato ver. Então, para não esperarmos um longo tempo, acabamos indo e vendo o que estava passando na hora, que era justamente X-Men 2.
Inevitavelmente, o interesse pelo filme, e de forma mais específica, pelo personagem Wolverine veio, e a pesquisa acarretou em algo que não imaginava ao longo dos meus 10 anos de idade: que suas origens estavam nas histórias em quadrinhos. Nada que uma ida a banca de jornal não pudesse resolver. Porém, se comparado o preço das HQs de banca, em torno de 6 reais na época, com as de uma livraria de livros antigos, onde podia-se comprar ainda no formatinho por 2 reais, esta última opção pareceu mais viável.
Entrando lá, a partir da entrada, no canto esquerdo, encontravam-se pilhas de HQs em formatinho de Wolverine. Ainda muito cru nesse mundo de leitura, optei por comprar dois números de uma história que parecia sequencial, por dois motivos bem bobos: Um deles, era porque eram mais finas que as demais, então poderia ler mais rápido. O outro, é porque folheando elas, percebi que as cenas de ação não conteriam diálogos, o que aceleraria mais ainda a leitura. Dito e feito.
Ao chegar em casa, reparei um detalhe que passou despercebido. Havia comprado as edições número 2 e 4. Independente disso, a diversão naquela inofensiva tarde foi imensurável, mesmo sem sequer ter a mínima noção do que realmente a HQ estaria passando.
A ideia aqui após este relato é traçar um paralelo. Honrando o título do blog, “O Crítico”, farei uma crítica sobre a minissérie de Wolverine, sua primeira história solo no mundo dos quadrinhos. Ao mesmo tempo, usarei minhas diferentes percepções ao longo do tempo sobre o que realmente me encantava quando falava sobre esta história com outras pessoas, até chegar ao estágio atual, de um leitor mais amadurecido. Encerrando, espero conseguir falar sobre lições que a minissérie trouxe para minha vida, para que me permitisse crescer como ser humano, assim como Logan cresceu como personagem.

A REINVENÇÃO DE UM PERSONAGEM
Chris Claremont havia dito que o personagem Wolverine se encontrava em um estado unidimensional. O personagem não passava de um assassino psicótico, que poderia matar alguém caso ele desse bom dia no tom errado. O que Claremont pretendia com a minissérie era mudar isso, realizar uma desconstrução, onde Logan se tornaria um “samurai defeituoso”. Se para um samurai o dever é tudo, para Wolverine, a dificuldade em se manter nesse aspecto seria tão grande que ele adotaria seu próprio código de conduta.
Além disso, o autor já deixou claro que um personagem não deveria permanecer estático, pois isto tiraria sua “alma”. Então, para Wolverine, chegava a hora de sua reinvenção, onde Claremont faria um caminho inverso ao habitual. Ao invés do argumento definir o personagem, ele partiria de uma pergunta: “Quem é Wolverine?”
A minissérie era um recomeço, mas não quer dizer necessariamente que começaria do nada. Aproveitando que Wolverine havia conhecido, em X-Men número 118, uma jovem japonesa chamada Mariko Yashida, Claremont aproveitaria este interesse do herói pela moça para desenvolver sua história.
É interessante ver que esse processo de mudança em torno do personagem está explicitamente mostrado nos títulos de cada um dos 4 números: Eu sou Wolverine, Deveres e Obrigações, Perda e Honra.

Eu sou Wolverine
Neste primeiro número, vemos um grande destaque ao lado animal de Wolverine. Desde a paisagem das selvas canadenses, seu enfrentamento com um urso pardo na selva, seu desgosto pelos humanos que causaram o sofrimento ao urso, e de sua frase característica, da qual ele falou neste número pela primeira vez:
“Eu sou o melhor naquilo que faço, mas o que eu faço não é nada agradável”
A premissa nos é apresentada. Wolverine estava mandando cartas a Mariko Yashida, mas todas elas estavam voltando. Seu amigo Asano Kimura discorre sobre a situação complicada no qual a amada de Logan está. Com a volta de seu pai, Shingen, ele a obrigou a se casar. Embora Asano tenha pedido paciência, Wolverine parte para a missão.
Durante sua abordagem, mais uma menção ao lado animalesco de Wolverine, que em seus pensamentos deixa claro para o leitor que não irá sacrificar os cachorros de guarda, mas não terá piedade dos humanos. Ao chegar a Mariko, o susto: A jovem tem marcas de agressão, sofridas pelo marido. Por falar nele, ele chega no local, enquanto Mariko explicava sua complicada situação. Wolverine só não o mata a pedido dela, e outro personagem entra em cena: Shingen.
Shingen havia arremessado shurikens envenenadas em Logan. Depois de uma conversa, ele o desafia para um duelo empunhando bokans, espadas de madeira, alegando que o herói não era digno de uma luta com espadas de verdade. Shingen derrota Wolverine facilmente, mesmo com o mutante chegando a usar suas garras por um momento. Aqui, o lado animal do mutante acabou o levando a ruína, derrotado e humilhado frente a mulher que mais ama.
Abandonado na rua, ele encontra uma misteriosa mulher, que irá deixar as coisas mais interessantes a partir do próximo número.

Deveres e Obrigações
Acordado às pressas, Wolverine parte para a luta contra ninjas do tentáculo que estavam lá para mata-lo. A sequência é primorosamente desenhada por Frank Miller, sendo um dos pontos altos de arte dentro da minissérie. A misteriosa mulher que o abordou e o acordou era Yukio, que praticamente era obcecada por Logan.
É interessante vermos que Yukio e Mariko fazem paralelos a personalidade de Wolverine. Yukio representaria o lado instintivo de Wolverine. Ela diz que daria a vida para ser como ele, ter suas habilidades. Mariko em contrapartida, quer seguir uma vida mais correta, e buscar ser uma pessoa melhor.
Durante a história descobrimos que Yukio na verdade estava trabalhando para Shingen, mas por estar apaixonada por Wolverine, estava agindo de forma insatisfatória, a ponto de Shingen a repreender. Conhecemos o plano do pai de Mariko, que é se tornar o rei do crime do Japão.
Yukio volta a Logan e os dois vão até uma peça teatral, que era uma fachada para que Katsuyori, alvo de Shingen, fosse morto. Wolverine intervém, e faz uma sangrenta luta, mais uma vez maravilhosa desenhada por Frank Miller. Considero este número 2 como o melhor no quesito arte, graças as sequências de ação. Importante ressaltar que na plateia deste teatro, estavam também Mariko, Noburo, além de Katsuyori e sua esposa.
Ao final, a derrota foi dupla. Yukio conseguiu o que Shingen queria, causando uma explosão no carro matando Katsuyori e sua esposa. Enquanto isso, Mariko fica completamente arrasada ao ver o que o lado mais selvagem de Wolverine é capaz de fazer. O fundo do poço de Wolverine era ainda maior que o da primeira edição.

Perda
O clima deste terceiro número da minissérie já é ditado em sua capa, com Wolverine melancólico e o uso de cores escuras no fundo e em seu rosto. Ao começarmos a leitura, Logan está afogando as mágoas num bar, brigando e bebendo, na companhia de Yukio. Asano o encontra, mas Logan recusa ajudar seu amigo e parte com Yukio.
Praticamente bêbado, Logan dorme e sonha. O sonho traz um elemento bacana para entendermos como está a mente do mutante mediante a toda essa situação. Lá, Wolverine é um cavaleiro rude, mas corajoso, e está atrás de sua amada. Mas, o cavaleiro é derrotado brutalmente, e finalizado justamente pela mulher que ama. O que entendemos com tudo isso? Que Wolverine está morrendo de medo do que poderá acontecer.
O tentáculo vai até Yukio tentando obriga-la a matar Wolverine, sem sucesso. Mas isso não quer dizer que ela deixará todos os seus deveres para trás. Yukio invade o escritório de Asano e o assassina. Logo depois, é Wolverine quem chega, e ele descobre que Yukio não só matou seu amigo, mas que fez de Wolverine uma peça importante para tirar pessoas do caminho de Shingen até que ele alcançasse o controle do crime no Japão.
Quando Wolverine chega até Yukio, o tentáculo surge. Furioso, Wolverine derrota todos os ninjas. Depois disso, o mutante encontra espaço para reflexão. A luta ocorreu num jardim zen. Logan explica que este jardim seria uma representação de um espaço de paz e tranquilidade, mas que quando ele chega nesse ambiente tranquilo, tudo vira uma bagunça, que era então o atual estado do jardim. A história de sua vida, segundo o mutante. Ele fala sobre Yukio, que quer ele como ele é, sobre Mariko, que faz ele querer mudar. Ao arrumar algumas peças do jardim, ele chega a solução: tentar. Há inclusive uma metalinguagem interessante, onde Wolverine diz que a estagnação é a forma mais horrível de morrer, então qual a razão de não tentar mudar?
Considero a terceira etapa da minissérie a que definiu a reinvenção do personagem Wolverine. Aqui, ele ganhou as três facetas de sua personalidade que considero fundamentais para que ele possa ser compreendido. A fera; O fato de estar propício a usar força letal contra seus oponentes; Sempre tenta melhorar enquanto pessoa. Os objetivos preestabelecidos estavam feitos, faltava fechar com chave de ouro.

Honra
Chegamos ao último número da minissérie. Wolverine vai destruindo o império de Shingen aos poucos, e dá o aviso: “Esta noite”. Shingen se prepara para a luta e lamenta ter subestimado o herói mutante. Mariko está desesperada, sem saber o que fazer mediante a grave situação em que está. Enfurecido Shingen quer punir Yukio, mas Mariko o impede.
Wolverine chega. Noburo ameaça matar Mariko mas Yukio o mata primeiro. Mediante ter salvado sua amada, Logan deixa Yukio fugir. Ao chegar a Shingen, Logan pergunta se ele agora, é digno, fazendo referência a luta do primeiro número. O confronto é tão duro quanto o primeiro, mas desta vez, o mutante vence, matando Shingen.
Ao final, Mariko encontra seu pai morto. Ela discursa para Logan, dizendo que os deveres do clã trariam uma obrigação a ela de mata-lo. Mas, mediante a todo o desgosto causado a história e legado do clã pelo seu pai, ela irá adotar uma medida diferente. Tentará trazer tempos mais calmos, e isso implica em não matar Logan, mas sim, presenteá-lo com a espada do Clã Yashida, e preparar um casamento para os dois.
Os arcos são fechados dentro deste último número de forma brilhante. Wolverine é recompensado pela sua mudança de comportamento, Mariko enfim ganha a coragem necessária para fazer o que é certo, e Yukio segue sua filosofia de vida, vivendo como quer, seguindo suas próprias regras.
Vale também ressaltar que o vilão da história, Shingen, foi bastante efetivo. Todos os esforços da história estavam em torno de desenvolver Wolverine como personagem, e usando os demais para reforçar isso. Shingen colaborou com seu plano, e também uma espécie de oposto a Wolverine. Enquanto o mutante é bruto por natureza mas anseia uma melhora de comportamento, Shingen tem uma pose de tradição, de homem correto, mas que é extremamente egoísta e abandona sua honra trapaceando em suas lutas.

A REINVENÇÃO DE UM LEITOR
Voltando a história que contei no início, meu primeiro contato com a minissérie foi com os números 2 e 4. E a razão de minha escolha se deu principalmente, pelo pequeno tamanho das revistas e poucos diálogos nas cenas de ação.
A coisa fica interessante se parar para pensar que eu acabei escolhendo HQs escritas por Chris Claremont, que sem dúvida é um dos autores mais prolixos dos quadrinhos, pelo simples fato de que achei que elas seriam rápidas de se ler. Obviamente que numa busca futura pelo autor, e vendo a imensa responsabilidade que ele teve como escritor e construtor de grande parte da mitologia mutante, veria que seu trabalho estava longe de uma leitura rápida, muito pelo contrário. Além de escrever muito, ele ainda amarrava os ditos “subplots”, que eram pequenos momentos nas histórias que viriam a ser lembrados em edições futuras, assim como aconteceu nessa minissérie que analisei anteriormente.
E aproveitando o gancho para voltar a história de Wolverine, percebi que alguma coisa estava errada quando eu fui a um despretensioso almoço com meus pais, e mais uma família vizinha, até a casa de parentes. Os dois números da minissérie eram meus fiéis escudeiros, e eu os levava para tudo que é lugar, e neste almoço não foi diferente. Então, uma pessoa chegou para mim e disse que tinha lido a história. Na falta de pessoas para conversar que tivessem gosto também por quadrinhos, a empolgação foi imediata. Mas, a empolgação deu lugar ao nervosismo com uma pergunta: “O que você pegou de lição da HQ?”
Essa pergunta foi responsável pela insegurança momentânea, que foi imediatamente percebida pela pessoa que me fez esta pergunta. Então ela já se prontificou em responder, dizendo que era a de você tentar ser sempre mais do que aquilo que você é, e acima de tudo, do que dizem que você tem que ser.
Naturalmente, ao longo dos 10 anos de idade que tinha, focar primeiro na ação e no lado “legal” dos super-heróis era o caminho. Era legal ser fã do Wolverine, as lutas eram intensas, os poderes o permitiam ser um lutador imparável, além é claro do visual do personagem, no seu glorioso uniforme marrom. Mas, será que também haveria um lado legal nele enquanto pessoa? Algo que o personagem pudesse realmente inspirar?
O caminho foi então procurar os números 1 e 3 da história. Achados, reli em sequência, mas ainda assim, a ação era o que mais me encantava, e não conseguia colocar na minha cabeça, através das palavras, essa tal lição presente ali naquela história. Resumindo, eu simplesmente não estava compreendendo aquilo que ela de fato estava querendo passar.
Durante essa época, indo para além das histórias em quadrinhos, também vinha seguindo a lógica da ação acima de tudo. O desenho X-Men Evolution, que era o que estava em evidência nessa época, já me incomodava bastante antes de conhecer de forma mais profunda os X-Men dos quadrinhos. A razão era justamente por ficar chateado com as cenas de ação, especialmente as que envolviam Wolverine. A solução para mim eram os quadrinhos, os filmes, que até então só estavam ainda em X-Men 2, e começar a assistir mesmo que em trechos presentes no YouTube, o desenho animado dos anos 90.
Alguns anos mais tarde, resolvi ler X-Men de forma mais assídua. Vendo um pouco de Wolverine antes ainda da minissérie, ainda era difícil captar o porquê de sua grande importância como lição e também para o personagem. Eu gostava, mas era incapaz de dizer a razão de sua grande genialidade.
Ao entrar na faculdade, durante o meu aniversário no ano de 2011, pedi de presente o encadernado com a minissérie, em capa dura. Ao ganhar, fui reler. Naquele ano, já estava acompanhando a cronologia mutante, e tinha uma experiência muito maior com quadrinhos. Além disso, minha preocupação com roteiros já estava infinitamente maior, aguçada principalmente por um... desenho animado. E este desenho foi Wolverine e os X-Men, que inclusive já fiz análise neste blog. Gostei tanto da história construída em torno dos melhores arcos de X-Men, adaptados para uma série episódica, que comecei a prestar mais atenção em história e personagens, fazendo eu amar mais ainda o desenho mutante, e começando a questionar mais outros que não conseguiam fazer isso com tamanha maestria.
Relendo a minissérie, consegui pela primeira vez pegar aquilo que ela estava passando. Além da história, o prefácio escrito por Chris Claremont ajudou muito a entender o que estava sendo feito ali. Ao ler, peguei a ideia de que o Wolverine que eu sempre fui fã, e continuo sendo, tinha sua essência construída naquela história, e que aquilo seria levado dali em diante, o transformando em um dos maiores personagens da história dos quadrinhos.
Finalmente posso responder à pergunta que me fizeram, e a outra até mais desafiadora: Por que esta é a história definitiva de Wolverine?
Sem dúvidas, a ironia do destino chegou a Chris Claremont. O autor planejava matar o personagem, que só ficou vivo porque foi “adotado” por John Byrne, seu parceiro na melhor fase da franquia mutante. Aquele que iria ser morto, acabou de fato “nascendo” como um personagem completo nas mãos do próprio Claremont dentro da minissérie.
O objetivo do autor estava claro: desconstruir Wolverine. A ideia do samurai falho encaixou como uma luva: o fato de Wolverine seguir seu próprio código de conduta deu um incremento a personalidade do mutante. A minissérie trouxe a Wolverine o aspecto mais vital para ser um grande personagem: tridimensionalidade. Ele pode usar a força letal, mas pode também não optar por isso. Ao mesmo tempo que é violento, tem um senso de honra. Praticamente foi estabelecido Wolverine como o mais “durão” dos heróis, mas talvez o mais “mole” dos anti-heróis, e é justamente esse o ponto: equilíbrio.
Esse caráter de “definitivo” é notório, pois de certa forma, a maioria das grandes histórias do personagem seguem essa linha pautada no tripé assassinato-fúria-pessoa melhor. Talvez, a única das “grandes” que consiga existir sem beber dessa fonte seja Arma X de Barry Windsor-Smith.
É interessante ver que o ator Hugh Jackman já disse em entrevistas que essa é sua história favorita do personagem e sua grande influência na hora de encenar o personagem. Aliar o caos que é Wolverine ao “rigor” característico do Japão foi uma jogada de gênio. Dar a ideia de Wolverine como uma força sem direção que está em constante desafio ao seu animal interior permitiria a ele se apaixonar (como foi com Mariko) e também a ser uma figura paternal (Especialmente com Kitty Pryde e Jubileu). Por fim, vale ressaltar que essa loucura não pode ser controlada, e que isso torna Logan solitário, com medo de se relacionar com as pessoas, um certo medo de intimidade, tão falado pelo diretor James Mangold ao trabalhar o personagem nos filmes Wolverine Imortal e Logan.
A minissérie de Wolverine me ajudou a crescer como leitor, mas ela não ficou só nisso. Conseguiu ir além.

A REINVENÇÃO DE UM SER HUMANO
O sentimento de arrependimento define uma lamentação por algo mal feito, algo que desejamos de certa forma fazer melhor.
É comum de minha parte parar para pensar em coisas que fiz na minha vida. E esse sentimento ruim de arrependimento que temos surge quando pensamos de que forma poderíamos ter agido diferente, e quem sabe, a resolução da situação não tivesse sido melhor.
Embora esteja longe de ser uma pessoa muito vivida, os arrependimentos que possuo perpassam pelos tempos finais de minha infância e período de adolescência. Aprendi cedo que a mentira pode ser uma consequência grave, que pode prejudicar as pessoas através de seu egoísmo, de querer que as coisas sejam não como tem que ser, mas sim da forma como você acha que é. Na escola, ainda mais sendo criança, não se pensa em muitas coisas que se faz. Sempre fui um aluno compromissado com as tarefas escolares, era difícil um erro ser cometido. Mas o mínimo poderia ser fatal. Em uma tarefa fácil, mas me deparei com uma situação até então inédita. Uma nota muito suavemente mais baixa do que o normal, tão suave que nas notas finais, talvez sequer fizesse grande diferença assim. Mas, a pressão dos amigos era presente. “Como é que pode logo você não ter tirado nota máxima num trabalho fácil desse?”. Não fiz a escolha certa após aquela situação, que me ensinou na frente de meus pais de que mentir não era a melhor escolha, especialmente quando você se depara na consequência que outras pessoas podem ter com aquilo que você faz de errado.
Naturalmente a situação poderia se repetir. Por duas vezes, acreditei que a mentira seria necessária, especialmente por não acreditar que meus pais pudessem entender a injustiça sofrida por mim naquelas situações. Escolher ser solitário não foi, não é e jamais será o melhor caminho. E assim se concluíram essas duas outras situações, com grande decepção por parte de meus pais e humilhação por minha parte.
Com o passar dos anos, penso muito nesses dias de infância e adolescência. Como que escutar outras pessoas, que na verdade estão longe de quererem algo de bom para você, pode ser danoso ao indivíduo. E acima de tudo, como escolhas erradas podem te prejudicar mais ainda, e causar dor pelo fato de que a culpa no fim das contas, é só sua. É natural perder a esperança em seguir em frente, especialmente com uma personalidade que se exige bastante, ter os percalços pode parecer o fim do mundo.
Nunca acreditei muito na ideia de HQs como um escapismo. Com aquela explicação clássica de que se você tem uma vida ruim, irá buscar algo melhor na ficção. Longe de que eu tivesse uma boa convivência durante meus anos no ensino fundamental especialmente, muito pelo contrário. Eram situações incômodas para mim e também para os poucos amigos com qual eu tinha contato constante.
Todavia, é justamente aí que essa minissérie entra, e me ajuda a ter uma inspiração, e também, um escapismo. Assim como Wolverine, também cometi meus erros ao longo da vida. Então, hoje, caberia a mim fazer a escolha que a história se apresentou a Wolverine: a pior das mortes (morte metaforicamente falando) na estagnação ou a tentativa constante de mudança. Ainda antes de entender a lição da história, realizei essa mudança na minha vida, e hoje, vejo que me encaixo nela perfeitamente. O segredo, segundo Logan, não é ganhar ou perder e sim tentar. E acima de tudo, aceitar a você mesmo, mas sem ficar usando a capa do “sou o que sou” como justificativa para mais erros. É por isso que a busca pelo melhor em cada um de nós é justamente o grande tesouro que a minissérie de Wolverine tem para contribuir com todos nós.
Assim como Wolverine, eu cresci e melhorei, e continuo buscando isso. Espero que cada um que em algum dia de sua vida, dedique tempo a ler esta obra, tenha a ganhar tanto quanto eu ganhei, ao compreendê-la e aproveitá-la o máximo possível. Não são só quadrinhos. Não é só um super-herói. Para mim, é muito mais do que isso.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Wolverine: Ladrão de Almas


Era o melhor dos períodos para começar a ler Wolverine. Quando em julho de 2003 a nova contagem da mensal do mutante começou, era “só” Greg Rucka que estava no posto de escrever o quadrinho. Resultado? Um ótimo período, que foi até a 19 com o roteirista, na qual destaco o arco “Coyote Crossing” como seu ponto alto. Depois, os fãs foram agraciados com Mark Millar, que com dois arcos, Inimigo do Estado e Agente da Shield, conseguiu manter o alto nível da mensal, colocando Wolverine para enfrentar quase todo o Universo Marvel, e depois buscando vingança contra quem o capturou e usou contra seus amigos.
Naturalmente que alguns anos mais tarde que essas histórias sairiam aqui no Brasil, nas mensais. Por sorte, foi uma época que eu estava acompanhando. Já tinha meu tempo de leitor, e a emoção de esperar a próxima edição era uma sensação incrível. Porém, tinha um detalhe interessante nas mensais que saíam em terras brasileiras. Diferente dos Estados Unidos, aqui não compramos a edição apenas com uma HQ. Durante o período do arco Inimigo do Estado, outras 3 histórias saíam junto com o número da mensal de Wolverine. Uma delas, também envolvia o personagem, e foi a minissérie Ladrão de Almas.
Despretensiosamente presente por 5 edições enquanto Inimigo do Estado rolava pela mensal, lembrei que quando li, havia gostado da história. Então, na ausência de muito material sobre esta minissérie, resolvi reler e fazer uma crítica. E lá vamos nós!

Os autores
Começamos aqui com uma curiosidade. O autor da HQ seria Akira Yoshida. Mas pesquisando sobre o trabalho deste autor, até imaginando que o mesmo tivesse feito sua estreia em HQs de super-herói nessa minissérie e que teria escritos obras como mangás por exemplo, acabei me surpreendendo. Akira Yoshida na verdade era um pseudônimo para C. B. Cebulski. E Cebulski não é qualquer um, já que hoje é o editor-chefe da Marvel. Yoshida, segundo matéria do Comic Book Resources, não era só pseudônimo de Cebulski, mas tinha inclusive até sua “história”, de um japonês que cresceu lendo mangás, e aprendeu inglês através de quadrinhos de super-heróis. E por ser “japonês”, ele teria o conhecimento e habilidade para trabalhar e dar voz a estes personagens. Que foi justamente o que aconteceu em Ladrão de Almas, minissérie que se passa no Japão. Aqui nos ateremos a crítica da história apenas, mas para quem quiser saber mais, deixo aqui a matéria do CBR sobre o assunto, em inglês. É bom avisar também que a matéria tem um conteúdo opinativo bem presente, então, esteja ciente do que irá clicar.
Quanto ao artista, ele é Shin Nagasawa, que desenhava mangás. O artista também fez trabalhos para cards de Pokémon.

A história
A premissa segue uma linha bem características das histórias de Wolverine, com viagens despretensiosas até locais bem característicos, que no fim, colocam o mutante no meio de um problema bem maior. Indo visitar sua filha adotiva Amiko no Hina Matsuri**, uma data que quer dizer “Dia das Meninas” no Japão, Wolverine encontra Yukio, já velha conhecida. Após um jantar com Logan, ela diz que está portando um artefato muito antigo (roubado), e que fica ouvindo uma voz feminina todo os dias. Os dois vão até Kenichiro, um amigo de Logan que entende de misticismo. Ken fica extremamente nervoso ao ver o artefato. Ele diz que dará dois dias para preparar o necessário para desfazer a maldição, e dá um artefato a Logan para protege-lo. Alguns ninjas aparecem no local e durante a luta, Kenichiro acaba morto. Wolverine entra em contato com o artefato que Yukio falou e tem uma visão de duas mulheres em confronto.
Na segunda parte, Logan resolve ir até o local que teve a visão. Lá, depois de um amplo reconhecimento, ele parte para a busca. Inicialmente ele acha uma das garotas da visão, sendo protegidas por monges. Depois de uma quase luta, os monges esclarecem que são protetores da moça. Os mesmos ninjas que mataram Ken aparecem de novo, e os monges dessa vez esclarecem: eles são os defensores da outra mulher da visão. Wolverine derrota todos os ninjas e leva a garota para casa. O nome dela é Mana, e Logan põe o colar nela, que acorda, enfurecida, já que não só ela recuperou sua alma, mas sua irmã, Hana, também.
Faço uma pausa na história para falar um pouco da arte. Nagasawa funciona muito bem nas cenas de ação, que são claras e realmente trazem dinamismo a história. Em contrapartida, nos diálogos, o autor deixa muito a desejar nas expressões faciais, que dificilmente estão de fato expressando aquilo que os personagens estão dizendo. Na primeira edição por exemplo, a conversa merecia mais atenção do leitor, e o artista não conseguiu convencer tanto. Em contrapartida, a segunda edição teve mais ação e Nagasawa brilhou. Um detalhe interessante é que na ação, ele consegue passar muito bem que Wolverine está “se divertindo”, justamente pelas expressões faciais que ele não conseguiu render tão bem nas conversas.
A terceira parte da minissérie é a esclarecedora da história. Mana conta para Wolverine a respeito da Ordem de Shosei, que protegia a região local por mais de 800 anos de diversas ameaças. Mana é de uma linhagem de sacerdotisas, que lideram essa proteção, sendo ela, a última. Sua história com Hana envolveu uma disputa para ser sacerdotisa, que Mana venceu. Hana contudo, não se daria por vencida. Ela usou de magias proibidas para tentar tomar controle da ordem, liberando um demônio de Ashurado, que a controlava e revivia os mortos como zumbis. O demônio se chamava Ryuki e se alimentava de mortos-vivos. Ryuki se viu capaz de abrir um portal na ponte de seis reinos, e ir do inferno a Terra em seu próprio corpo. Então, Mana fez o sacrifício final e aprisionou sua alma, a de Hana e a de Ryuki em seu colar. Wolverine se frustra com o ocorrido. A situação ainda fica pior pois o local onde Hana está tem diversos corpos enterrados que servirão para aumentar seu exército. Logan questiona Mana que os corpos deveriam ser cremados, e Mana responde que no local, criminosos foram enterrados, sem merecer a honra da cremação. Para o combate, Mana faz um processo de purificação em Wolverine. O ponto mais alto da narrativa é aqui, com o conhecimento do contexto no qual Logan está inserido, com Mana, Hana e a ordem Shosei.
No quarto número, penúltimo da minissérie, o foco é quase que total na ação. Wolverine enfrenta os zumbis. No templo Toji, enquanto Mana visita Oinari, uma Raposa de cabelo prateado, que tem a resposta para vencer Ryuki: ouro. Hana propõe que Wolverine e Mana entreguem a espada de sangue, caso contrário, a Terra sofrerá. Local dado, Hana foge. Mana explica que é a espada de sangue faz parte de um cerimonial dos Shosei, e que tem o sangue das ancestrais e parte de suas almas na lâmina. As almas serviriam para que Hana abrisse o portal até Ashurado. A proposta foi feita por uma razão: para que as almas se libertem, é preciso ordem de Mana. Mana dá a espada a Logan e é hora de resolver as coisas.
Estamos próximos do fim. Durante a batalha final contra monstros gigantes que vão sendo dilacerados por Wolverine, o roteirista escolhe uma saída um tanto clichê: Hana detinha Yukio e Amiko como reféns. Sabemos da natureza protetora de Logan que aceita a oferta de libertação das duas dando a espada. Porém, Hana trai Logan e diz que irá mata-las, sendo impedida por Mana. As irmãs lutam novamente e Mana faz sua magia final: transforma as garras de Wolverine em ouro, que é a fraqueza de Ryuki. O demônio é facilmente derrotado. Ao final, Amiko revela que consegue ouvir as almas das espadas, fazendo Mana suspeitar que ela seja da linhagem dos Shosei.
Não houve nenhuma necessidade de fechamento de arco em termos de personagem dentro da história, com seu foco sendo quase que exclusivo na ação. A arte tem justamente seu destaque na parte da ação, então realçou seu foco. A releitura foi agradável, embora não seja nada especial em termos de escrita, tem seus méritos e é digna de lembrança.
Interessante ressaltar também que as artes de capa são muito bem feitas.

** O Hina Matsuri
O Hina Matsuri é celebrado no dia 3 de março, sendo o Festival das Bonecas e o Dia das Meninas. As bonecas ficam dispostas em um altar da mesma maneira durante dos os anos, conforme a imagem.
A origem veio durante o Período Heian, onde antigamente, acreditava-se que as bonecas tinham o poder de conter maus espíritos. Como a história Ladrão de Almas também está ligada a almas e espíritos, me parece que a escolha da data para se passar a história foi proposital. Uma boa sacada do escritor.


sábado, 4 de março de 2017

Logan - Crítica



Logan é o décimo filme da franquia X-Men comandada pela Fox, sendo o terceiro do personagem Wolverine. O filme foi dirigido por James Mangold, contando com aproximadamente 2 horas e 15 minutos de duração. O filme foi cercado de uma expectativa muito grande, devido ao anúncio de Hugh Jackman que seria seu último filme interpretando o personagem depois de 17 anos. Além disso, os trailers foram muito comentados pelas redes sociais e as críticas estão elogiando este filme como nenhum outro da franquia X-Men, com inclusive, uma aprovação neste momento de 94% no site Rotten Tomatoes, que contém reviews de vários sites. Até mesmo a imprensa brasileira, que claramente tem “um lado” na hora de avaliar os filmes, aprovou Logan como um dos melhores filmes de heróis de todos os tempos.

***MUITOS SPOILERS ABAIXO

O filme já manda o seu recado ainda na primeira cena. Logan sai do porta malas de seu carro, que havia sido roubado por mexicanos. Logan não só se apresenta muito cansado, como também anda mancando. Depois de levar um tiro a queima roupa, resolve brigar. Quando ativa suas garras de adamantium, uma delas não sai por completo. Apesar de debilitado, o herói mata todos os bandidos.
Logan é o primeiro a ser apresentado no filme, e vemos que além de toda essa luta contra seus poderes, ele tem trabalhado como motorista. Em um de seus trabalhos, ele levou uma família a um funeral e foi abordado por uma mulher mexicana chamada Gabriela, que queria ajuda, Logan recusa e a ignora no restante da cena. Ainda voltaremos para ela. Logo depois, Logan vai até um hospital coletar um remédio, quando é abordado por um dos principais vilões do filme, Pierce. Com braço mecânico, Pierce diz que Logan foi abordado por Gabriela e pede ajuda para pegar de volta algo “de responsabilidade dele”. Apesar da ameaça, Logan prefere ficar fora disso.
Depois dessa introdução, ele vai até sua casa, num deserto no México. Logan vive em uma casa velha, que possui uma caixa d’água virada também no terreno. Na casa, está Caliban, mutante que tem a capacidade de rastrear outros mutantes. Caliban tem uma grande aversão a luz e constantemente questiona Logan com relação ao Professor Xavier, e o tratamento que está tendo. Então, na cena seguinte, vemos Xavier. A cena é no mínimo, incômoda. Xavier está tendo alucinações, não reconhece Logan e reluta para tomar os remédios que controlam suas convulsões. Depois de encarar uma mente instável, Logan consegue estabilizar o professor. A cena é espetacular, demonstrando bem a desesperança da vida deles, e com Xavier extremamente chateado com Logan por ter perdido a vontade de viver, e por não acreditar que ele está se comunicando com uma mutante que está precisando de ajuda. Uma carga já fortíssima que é carregada para o resto do filme.
Logan então é contatado para um serviço, e acaba descobrindo que é na casa de Gabriela. Lá, ela dá detalhes sobre a situação, e diz que Pierce quer a garota, e pede ajuda desesperadamente. Logan só aceita quando Gabriela adianta um grande pagamento para que Logan faça o transporte da garota. Logan então volta a sua casa apenas para avisar que fará o trabalho e irá ficar fora por uns dias. Quando retorna a casa de Gabriela, ela está morta. Logan então volta mas ao chegar em casa, Caliban descobre que alguém veio na mala do carro do mutante, que tinha uma bola de plástico e uma mochila. Pierce chega até o local perguntando da garota, Logan diz que não sabe, até que Pierce é acertado na cabeça por um cano de metal, arremessado pela garota. Logan pede para que Caliban desove o corpo e volte.
Xavier então diz a Logan que é a garota de que ele falou, de nome Laura. Os três ficam na espera enquanto Logan tem um primeiro atrito com Laura, onde vemos a primeira pista da semelhança entre os dois, um temperamento forte. Caliban é surpreendido por Pierce, que acorda e faz ele de refém. Com ajuda dos Carniceiros e da Polícia Federal Mexicana, eles vão atrás da garota novamente. Eles neutralizam Logan, mas não conseguem parar Laura. A jovem garota libera suas garras e começa uma luta violenta, que termina com a fuga dos três. A cena é muito bem coreografada, especialmente as lutas de Laura, que salta o tempo inteiro e demonstra que realmente foi criada para ser uma assassina. A violência é brutal, com cortes estando bem claros diante das câmeras além de acidentes bem graves, como um corpo arrastado e um atropelamento por trem. Começa então oficialmente, uma viagem dos três com um suposto destino em comum, o chamado “Éden” mutante, apesar da relutância de Logan em acreditar.
Logan e Xavier assistem um vídeo do celular de Gabriela e descobrem o contexto das coisas. Uma organização chamada Transigen trabalhou em um projeto onde crianças eram criadas a partir do DNA de mutantes, para se tornarem soldados. Seus poderes eram variados, mas elas se revoltavam diante do controle imposto pela organização. Quando a bateria do celular acaba, os três param em um posto. Duas cenas de Laura demonstraram muito bem as características da personagem. A primeira, é ela brincando num cavalinho ao lado da loja de conveniência do posto, que quando ele para de funcionar, ela quer agredir o brinquedo. Depois, ela resolve pegar um refrigerante, batata Pringles e um óculos de sol, sendo abordada pelo dono da loja e depois também tentando agredir ele, mas impedida por Logan. Ali vemos que Laura é resultado dos experimentos e do cativeiro que ficou, sendo capaz em cenas atrás de dilacerar inimigos, mas nessa, agindo como uma criança comum, encantada com tudo aquilo que não conhece.
O trio se dirige a um hotel em Las Vegas, localizado em um casino. Depois de uma compra de roupas novas, Xavier está assistindo ao filme “Os Brutos Também Amam”, com Laura ouvindo o que ele tem a falar e brincando na sua cadeira de rodas elétrica. Logan então vai lendo os arquivos de Gabriela e vê que Laura foi feita pelo seu DNA, o que já era notório mediante os poderes e comportamento da jovem. Então, em meio aos arquivos, ele acha HQs dos X-Men. Logo depois, vai pagar uma moral para Laura, dizendo que aquilo aconteceu em partes, e não daquele jeito. Inclusive, Logan se ironiza, dizendo que um marrento de collant amarelo não resolve as coisas.
O velho mutante sai à procura de um novo carro para continuar a viagem. Durante a troca de pneus, ele vai até um bar e resolve ler um pouco as HQs. De repente, ele percebe que as coordenadas do Éden mutante eram idênticas ao do Éden mutante citado nas histórias em quadrinhos. Isso irrita Logan, que agora mais do que nunca, acredita que isso é uma mentira.
Quando Logan volta, nota uma movimentação estranha no hotel, os Carniceiros estão lá. De repente, o mutante é afetado mentalmente, assim como todos a sua volta. Xavier estava sendo atacado pela milícia e estava tentando se defender. Logan com muito esforço vai até o quarto, mata todos ali presentes e estabiliza Xavier. A cena é muito boa, com um capricho enorme nos efeitos especiais e principalmente, nos efeitos sonoros, que passam a sensação de desorientação provocada pelos poderes de Xavier.
O doutor Zander Rice aparece pela primeira vez no filme, tentando convencer Caliban a ajuda-lo, acreditando que Caliban sempre deixa os Carniceiros um passo atrás do que tem que ser feito. De volta a estrada, mais discussões entre Logan, Laura e Xavier, até que eles quase sofrem um acidente, que acaba afetando um carro de uma família, que estava transportando cavalos. Os cavalos se espalham pela estrada e Xavier cobra de Logan que ajude a família. Relutante, Logan para o carro e vai ajuda-los. Após terem sido ajudados, a família dos Munsons, como são identificados, oferece casa e comida aos mutantes. Logan não quer, mas é forçado por Xavier.
Essa cena na casa dos Munsons já havia chamado a minha atenção durante os trailers, pois já esperava alguma coisa especial com relação aos personagens. E não deu outra. Laura sem modos a mesa sendo repreendida por Logan o tempo todo, referências ao tempo que Xavier era diretor de escola, com ele ironizando o quanto Logan era mal aluno. É praticamente o primeiro momento de risadas dos personagens, mediante a todo o sofrimento construído pelo filme.
Então, surge o primeiro problema, a água da casa é cortada e Will Munson resolve ir resolver o problema, que envolve pessoas que são donas de parte da propriedade. Logan vai com o homem para ajudar. Xavier então fala para Logan algo antes dele sair, dizendo para que ele aproveite aquele momento, que é como uma vida em família deve ser. Logan responde que isso não existe mais, e que o mundo não é como era antes. Ainda na casa, temos uma cena hilária de Laura ouvindo música no celular do filho da família, Nate Munson.
Logan e Will se envolvem numa pequena confusão com os donos da propriedade, mas conseguem resolver seu problema por hora. De volta a casa, Xavier vê Logan entrando no quarto, e pede para que ele deixe Laura dormir mais um pouco. Enquanto isso, Xavier nos faz uma revelação. Ele se lembra do que aconteceu na mansão dos X-Men em Westchester, ele que matou a todos os mutantes que lá estavam, e se conscientizou do porquê de Logan não contar a ele sobre isso. Porém, quando ele vira, é furado no peito, não por Logan, mas por seu clone. Laura parte desesperada para lutar contra o clone, que a captura e mata mãe e filho da família Munson. Quando Logan chega com Will, eles ouvem tiros e entram na casa. Will é ferido pelo clone, que finalmente encara Logan. A encarada é tensa, e Logan resolve ir atrás de Xavier para salvá-lo, mas sem sucesso.
O clone de Logan vai levando Laura até Zander Rice, o chefe da Transigen, quando é abordado pelos donos da propriedade, que não sabe que ele é o clone. Todos eles são brutalmente assassinados. Rice pede para que os Carniceiros o ajudem, Logan se aproveita da oportunidade e começa uma luta violenta contra seu clone. Para Logan, é difícil, pois seus cortes são rapidamente curados, mas os que sofre, ficam lá o afetando. Depois de quase ser morto, o clone é atropelado por Will, que dá 3 tiros nele, paralisando-o temporariamente. Will morre. Logan pega Laura e sai com ela da fazenda.
A cena em que Logan enterra Xavier demonstra bastante a dificuldade do personagem de lidar com os problemas. Ele mal consegue falar alguma coisa e resolve deixar pra lá. O carro de Logan dá problema e ele destrói grande parte do carro, tomado por fúria. Ali, todas as frustrações não só do filme, mas de sua vida, foram despejadas. Uma cena espetacular que confesso, não consegui rir por simpatizar ao sofrimento do personagem. Depois que ele desmaia, Laura rouba um carro e leva Logan para um médico em uma cidade na beira da estrada. Logan obviamente, não quer ficar com medo de um ataque e parte. No carro, ele agradece a Laura que enfim solta suas primeiras palavras: “de nada”. Logan se assusta e grita com a garota, o que foi a palhaçada dos últimos tantos mil quilômetros, que ela não falava nada. Nada mais justo que ela também descontasse o sofrimento dela nele, reclamando que ele só grita, a insulta e não a deixa fazer nada. E começa uma discussão áspera, com direito a soco na cara, para que Logan a leve para o Éden mutante. A interação entre os dois aqui foi tão boa quando a das lutas, demonstrando realmente o quanto os personagens são parecidos, mas com ela tendo ainda uma esperança, enquanto ele já não acredita em nada.
Durante a viagem, Logan dorme no volante constantemente, até que quando ele resolve dormir a pedido de Laura, ela mesmo dirige até o local. Chegando lá, não era necessariamente o Éden mutante, mas sim um ponto de encontro. Todas as crianças dos arquivos estavam lá. Elas ajudam Logan a se curar com um soro feito para aumentar a capacidade dos poderes mutantes, feito pela própria Transigen. As crianças resolvem partir no outro dia, contra a vontade de Logan que diz que pode dar errado, já que toda vez que ele no filme acatou uma espera, acabou sendo descoberto.
Outra cena muito interessante nesse momento do filme foi a inconformidade que Laura tem ao saber que Logan não irá com eles para o Éden mutante. Apesar de todos o tratamento nada amigável de Logan, ela ainda se importa com ele. E parte desse carinho todo vem também a pedido de Xavier, que disse a Laura que ele pensava em se matar, com uma bala de adamantium que guardava no bolso. A cena é espetacular, pois praticamente fecha de vez o quanto o clima realmente está péssimo para Wolverine durante todo o filme.
No outro dia Logan acorda e as crianças já haviam partido. Elas deixaram uma última dose do soro caso Logan viesse a precisar. Quando ele enxerga a distância tropas da Transigen pela floresta, decide ir atrás deles porque obviamente, estão tentando interceptar as crianças.
Na floresta, elas tentam fugir, resistir, mas apesar de lutarem acabam sendo pegas uma a uma com exceção de Laura, que segue lutando e resistindo. Quando ela é cercada, Logan chega. Sob efeito do soro, o estrago é total. Logan e Laura vão resistindo constantemente, matando todos a sua frente. Então, o soro começa a perder efeito. Logan então é confrontado por Rice. Nessa cena temos a revelação de que ele foi responsável pelo que aconteceu com os mutantes, e que fez isso para que os próximos que nascessem fossem oriundos apenas do seu projeto, controlando assim seu próprio exército mutante. Logan mata Rice a queima roupa com um tiro. Pierce solta o clone de Logan, X-24, e a luta começa. As crianças mutantes conseguem neutralizar Pierce, enquanto Logan é mortalmente ferido por X-24. Laura chega e acerta um tiro em cheio com uma bala de adamantium no clone.
Então, temos a épica cena de diálogo final entre Logan e Laura. Logan teve sua vida destruída pelo programa Arma X, que ao tentar transformá-lo em uma arma viva, tirou dele uma possibilidade de uma vida normal. Todo esse sofrimento ao longo do tempo fez com que Logan perdesse a fé nas coisas, na família, de que realmente poderia ter uma vida normal. Sua descrença fez com que sua ida ao Éden fosse atrasada constantemente. Além disso, se negou a sua própria família, dizendo a Laura que não iria com ela para o Éden, ela que saiu de seu DNA e era praticamente sua filha. Laura a chama de pai na cena, o que aumenta mais ainda o peso da cena. Acrescentando a isso, duvidei muito da ideia de um X-24, e que isso poderia funcionar. Mas, funcionou. Ali, Logan confrontou seu passado, de assassinato, conhecendo apenas a violência, que no fim, acabou também tirando sua vida. Depois de tudo isso, sua vida enfim, chega ao fim. Mangold fecha o arco do personagem de uma forma magistral e emocionante. Durante o enterro, Laura cita a frase do filme que ela viu com Xavier, uma mensagem sobre como o homicídio é algo que você não pode mais voltar, e que tudo que resta agora são rótulos. Não tem mais armas no vale, avise a sua mãe que está tudo bem.

Por que esse filme é espetacular?
O enredo do filme é bem construído para permitir que os personagens cresçam ao longo da trama, pois o foco são eles, mais do que a história em si. Hugh Jackman, Dafne Keen e Patrick Stewart atuaram de forma espetacular. Jackman é o Wolverine definitivo, e tendo o personagem como meu favorito, digo: é insubstituível. O personagem pode terminar no cinema com esse filme tranquilamente. Jackman já havia proporcionado um trabalho infalível em Wolverine Imortal no aspecto lutas/personalidade, e em Dias de um Futuro Esquecido, interagindo ao melhor estilo Wolverine com Xavier, Magneto e Fera. Esse filme é a cereja do bolo que faltava, um filme de Wolverine que é de fato, incontestável. A forma de falar, de andar, de lidar com as coisas e claro, as lutas, mostram que aquilo que vimos no cinema, é o Logan das histórias em quadrinhos vivo, se mexendo ali na nossa frente. É uma perda irreparável para a franquia da Fox.
Dafne Keen é X-23 no filme, e podia ser pra sempre. Sim, a cronologia da Fox tem problemas de consistência, mas agora, não consigo querer outra coisa senão que haja alguma viagem no tempo para trazer ela para a cronologia do presente. A atriz fez seu primeiro filme na vida, e destruiu como X-23. Ela consegue dizer muita coisa nas suas primeiras cenas sem simplesmente falar uma palavra. E quando fala, rendeu grandes momentos de humor e de seriedade para a trama.
Xavier está bem diferente do habitual, mas condizente com o que o filme propôs enquanto mundo. Debilitado, mas ainda com aquele elemento que caracterizou o personagem dentro do universo dos filmes mutantes, a esperança.
As cenas de ação ganharam muito com a permissividade de uma censura alta. Não dá pra imaginar esse filme sem a censura para maiores de 18 anos. Sim, semana passada escrevi aqui no blog que Wolverine não precisava de violência pra ser legal, mas também não neguei o fato de que elas ajudam bastante, já que um de seus poderes mais marcantes visualmente falando são as garras de adamantium.
Agora, vamos voltar nossas atenções para o quanto as HQs influenciaram a trama. É sabido que O Velho Logan, de Mark Millar e Steve Mcniven foi a principal fonte do filme. É também sabido que adaptar esta história era extremamente difícil, pois grande parte dos personagens que interagem com Wolverine estão no universo cinematográfico da Marvel. Então, esperava apenas uma ideia, de um Logan velho e descrente da vida. Mas acabou que outras coisas também se fizeram presentes, como por exemplo, essa criação de um exército mutante, extremamente similar a tentativa do Gavião Arqueiro de remontar os Vingadores com o soro super soldado.
Uma coisa sem dúvida, o filme fez melhor que os quadrinhos, que foi Logan realmente ser velho. Na hq, Logan parece ainda no auge, só que de cabelo branco, pois matar quem ele matou, como Caveira Vermelha e toda a gangue Hulk não demonstra muita limitação em seus poderes. Quanto ao clima da HQ, temos sim muitos desertos e estradas, mas sem o domínio de super vilões em cada região dos Estados Unidos, o que para o filme não funcionaria nada bem, mediante a sua proposta mais voltada para a intimidade dos personagens.
Por fim, é bom salientar que é um filme que desafia o gênero. Ele é algo novo para o cinema de super heróis. Não temos cenas pós-créditos, piadas infames nos piores momentos possíveis, e nem mesmo vilões espetaculares. É um filme sobre personagens, que permite muito bem ao diretor fazer aquilo que bem entende enquanto um filme, sem intervenções que acabam por tirar o foco da qualidade do filme, como junção de universos, filmes futuros e até mesmo venda de bonecos.

O que poderia ter ficado melhor?
No fim, talvez um trabalho um pouco mais dedicado aos vilões. Creio que para o que o filme quis fazer, eles foram mais do que suficientes. Mas fazer revelações importantes serem tão repentinas, como fato de Rice ter sido responsável pelo “fim” da raça mutante, poderia ter sido feito de outra forma. Mas é um mero detalhe, num filme cheio de acertos.

Uma observação necessária
- Tem sido um mantra da imprensa repetir que Deadpool foi o grande responsável por Logan ser como foi. E que satisfação ver que não foi absolutamente nada disso. Quando Jackman e Mangold entraram em contato com a Fox, Deadpool sequer havia sido lançado ou filmado, e menos ainda, tido o resultado positivo na bilheteria. Portanto, a Fox realmente teve uma certa coragem ao permitir que isso acontecesse. Para quem duvida, assista a entrevista com o canal Jovem Nerd, onde Jackman afirma isso que falei. 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Wolverine e violência: Uma união indispensável?

Acompanho as histórias em quadrinhos do Wolverine (e também dos X-Men) desde 2003. Na época, o filme X-Men 2 me despertou um interesse muito grande para conhecer mais sobre o personagem e aquele universo. Então, naturalmente, a transição dos filmes para as hqs foi muito rápida. Naquela época, uma coisa já havia me surpreendido, que era uma maior permissividade da violência dentro dos quadrinhos, principalmente se compararmos com os desenhos animados, que são limitados por questões de censura.
Quando nós olhamos um personagem como Wolverine, com garras de adamantium, fator de cura e temperamento forte, logo de cara associamos que ele é um personagem dependente da violência. Ora, se ele tem garras, ele corta pessoas. Se ele tem cura, faz sentido ele se ferir para vermos o dito poder em ação.
Porém, diversas adaptações conseguiram trazer o Wolverine de forma correta, respeitando o material base, sem necessariamente trazer a violência junto com o personagem. Portanto, nesta matéria, veremos um pouco dos dois lados, como o Wolverine ganha (e muito) com violência, da mesma forma que ele não necessariamente precisa dela para brilhar enquanto um grande personagem.

Os jogos, as HQs e até desenhos: Como a violência colaborou para o personagem
A primeira coisa que me vem à mente quando associo Wolverine a violência, é o jogo X-Men Origins: Wolverine, mais especificamente, a versão lançada para os consoles da sétima geração, PS3, Xbox 360 e claro, o PC. Essa edição tinha o subtítulo de “Uncaged Edition”, por se tratar da versão principal do jogo do filme (já que haviam versões pra outros consoles, como o 3DS e o PS2). O denominador comum das críticas foi que o jogo era muito melhor do que o filme, mesmo que a história do jogo fosse idêntica, com exceção da adição de um capítulo envolvendo sentinelas e mais detalhes sobre o dia-a-dia do Time X na África.
Então o que fez as pessoas serem mais condescendentes, digamos assim, com aquele Blob, aquele Deadpool e demais saídas de roteiro? A violência. O jogo continha finalizações brutais contra os seus adversários, incluindo arrancar a cabeça do piloto de helicóptero na própria hélice, além de finalizações específicas para alguns tipos de inimigo. O combate brutal é um dos melhores já feitos dentro dos jogos, extremamente dinâmico, responsivo, e ao mesmo tempo, propositivo em relação aos inimigos. A violência fez com que as pessoas vissem o personagem de uma forma mais “bad ass”, diferente do que vinha sendo feito dentro dos desenhos e até mesmo no filme, pois embora Wolverine fure as pessoas, tudo é muito discreto.
Quanto as hqs, os exemplos para violência não faltam, temos Velho Logan, a própria série Max, dentre outras. Todas elas com uma carga de violência relativa, que faz algumas cenas, como essa do Logan contra o Hulk na última edição da saga, se tornarem icônicas.

E quando o Wolverine não tem violência? Será que o personagem perde bastante?
A primeira coisa que me incomoda quando falam que o Wolverine é pesadamente dependente de violência, é quando penso na série animada dos anos 90. Lá, Wolverine não derramou uma gota de sangue dos seus inimigos. Nem por isso, os fãs deixaram de se divertir com o personagem, que figurava entre os mais populares do desenho. Diversos vídeos inclusive, são feitos relembrando as grandes frases, e não as grandes lutas, do personagem, como podemos ver abaixo.

Além disso, se formos as origens, Wolverine não tinha muita violência atrelada a ele em suas histórias iniciais. Nos X-Men, a maioria das cenas mais brutais eram cortadas para o espanto dos membros da equipe ao vê-lo fazendo tal coisa, ou contavam com a cor uniforme, disfarçando a violência, como foi na lendária Uncanny X-Men #133.

Indo um pouco mais adiante, o próprio das mensais em 1988, com foco em Madripoor, também não tinham altas doses de violência, onde o investimento ficava mais na criatividade e no personagem do que necessariamente nas lutas. Obviamente, que com o passar do tempo, algumas histórias foram ficando mais permissivas com relação a violência.

E onde eu quero chegar com isso?


O que me incentivou a escrever esse texto foram as críticas recentes sobre o vindouro filme Logan. Muita gente tem focado em o quanto a violência colaborou para o filme, sendo que ao mesmo tempo, muita gente fala que o aspecto adulto da obra cinematográfica não está atrelado só a isso, mas ainda assim, ficam massificando “violência violência violência”. Não vi o filme ainda, mas tenho certeza que, da mesma forma que não é o extremo de que a violência foi vital, também não é o outro extremo de que ela foi supérflua. Lógico que o sangue, os cortes, ou até mesmo desmembramentos acrescentam um aspecto mais legal e realista para o personagem, mas tratar isso como a única coisa que faltava para ele no cinema (e isso vale para outras mídias também) me soa como um exagero, principalmente já considerando exemplos citados aqui de que o personagem conseguiu render muito bem sem necessariamente arrancar de sangue de ninguém.